2018-02-13

E agora BE-Madeira?

O Bloco não soube ou não quis aproveitar os bons resultados de 2015 para reforçar a sua atuação a favor de quem trabalha - que é a sua missão. Fechou-se numa lógica da preservação do poder interno, como se fossem demasiados votos para a camioneta.

A transição da liderança de Paulo Martins, em 2008, deu-se num contexto de guerrilha contra a sua família, acusada de monopolizar o BE. Os novos dirigentes quiseram afastar a “velha guarda” da UDP, tida como um obstáculo. A estratégia levada até às regionais de 2011, resultou no desastre eleitoral, o pior resultado de sempre. Fora do parlamento, veio um tempo difícil com sacrifícios de muitos, mas não de quem foi pago para se dedicar ao partido a tempo inteiro.

Em 2015 a estratégia foi a oposta, aberta a contributos de todos os militantes, com vários porta-vozes. O coletivo funcionou e deu bom resultado, um grupo parlamentar e deu ânimo ao partido que registava desaires desde 2009.

Nas legislativas o BE foi terceiro, elegeu um deputado da República e quase triplicou a votação das regionais. O BE teve na campanha um rosto e um porta-voz, que não foi o do coordenador regional - cujo maior contributo terá sido mesmo a discrição. A mudança desta vez funcionou, deu o melhor resultado de sempre.

Um partido é um coletivo de gente unida em torno de uma missão e em cada momento indica um rosto que o representa. Esse rosto tem de ser credível e inspirar confiança ou não merecerá o voto do povo. Há que respeitar o coletivo e não usá-lo só para diluir responsabilidades e para ratificar decisões consumadas. Há a responsabilidade coletiva, que não apaga a individual.

Com estes bons resultados, o partido deveria ter feito mais: criar núcleos locais, maior presença junto das pessoas, cativar novos militantes, quadros qualificados que são a marca do BE, reforçar a sua credibilidade, mostrar mais caras nas iniciativas políticas e no parlamento com a rotatividade, exigir maior representação na coligação no Funchal. Assim se constrói um coletivo forte. Quem não deixou acontecer, para proteger o seu lugar, não é credível para o fazer agora.

Um rumo claro. A dívida, o desemprego, a pobreza ou a falta dum hospital na Madeira, resultam do mau governo, das más opções, das obras inúteis, da corrupção. Os responsáveis estão na Região, não em Lisboa. Um poder que diz defender a Madeira, mas na verdade defende os parasitas, os senhorios. Combater este mau governo significa desmontar as teses de que a esquerda não é autonomista, mostrar uma prática política de abertura, transparência, sem tiques da prepotência, sem eternizar-se nos lugares, nem fantasias de inimigos externos que são só truques para branquear as responsabilidades de quem governa há 40 anos.

Um coletivo forte, um rosto credível e um rumo claro, tudo o que é preciso, está ao nosso alcance, haja vontade!

A escolha é simples para os bloquistas da Madeira: continuar na via que já conduziu ao desastre; ou seguir um caminho diferente que já se revelou capaz de conquistas antes impensáveis.

publicado no Diário de Notícias da Madeira a 13/02/2018

2018-01-09

Carta aos aderentes do BE-Madeira

Camaradas,

Tem de haver futuro para a gente na nossa terra, na Madeira. Temos o direito a viver na nossa ilha com trabalho com escola, com saúde, ou seja, a ter uma vida com dignidade. Mas depois de 40 anos de governos PSD, de tanta loucura de obras, tanta gente tem de emigrar para ter trabalho. O governo do PSD só pensa nos negócios do AFA, dos Sousas, do Pestana ou do Jaime Ramos - dos amigos.

Precisamos de um governo que pense no povo e não nos ricos, que acabe com as “mamas” dos portos, da Zona Franca, da via litoral e outras.

E precisamos dum Bloco de Esquerda que não durma à sombra da bananeira. Que diga o que tem de ser dito, doa a quem doer, como sempre fez o Paulo Martins, que vá aos sítios onde há problemas e fale com as pessoas, não fique fechado no gabinete.

Há 6 anos, em 2011, o Bloco ficou fora da Assembleia, coisa que nunca vista em 35 anos de autonomia. Foi ultrapassado por 4 novos partidos (PND, MPT, PAN e PTP) como se costuma dizer, entrou “torto e cambado” na Assembleia, só o Bloco não entrou.

Em 2015 o Bloco elegeu dois deputados, foi bom. Mas o PSD e o PS perderam muitos votos, foi o pior resultado de sempre para ambos. Quem soube aproveitar bem foi o JPP, mais uma vez o Bloco foi ultrapassado por um partido novo.

Mas nas eleições legislativas, há dois anos é que foi uma grande surpresa, o Bloco ficou em 3º lugar com 10,7%, teve 13.342 votos e elegeu um deputado para a Assembleia da República, coisa que ninguém esperava.  Uma mudança da cara do partido deu bom resultado - o melhor resultado de sempre. Se fossem eleições regionais dava 6 deputados.
Vão dizer que foi o efeito Catarina. Em 2015 o BE com a Catarina teve mais 3 deputados mas teve menos 7.213 votos que o Francisco Louça em 2009, no total nacional. Na Madeira o BE passou de 8.446 em 2009 para 13.342 em 2015, cresceu 60%.
Só houve efeito Catarina na Madeira? Isso não tem lógica, não faz sentido.
Foi o efeito novidade, os madeirenses gostam de novidade e cansam-se de ver sempre as mesmas caras e de ouvir sempre a mesma conversa.

Temos de apostar na novidade que tão bons resultados já deu ao partido, para dar mais força ao Bloco, para obrigar o governo a pensar no bem do povo.

Eu e um grupo de camaradas estamos a preparar uma lista à próxima convenção regional a 4 de março e queremos contar com o seu apoio.
Não é contra ninguém, é pelo bem do Bloco para que seja maior e mais forte, para mudar a sério a política e para mudar a vida de quem trabalha na Madeira.

2018-01-03

O fecho dos CTT no Arco da Calheta e a hipocrisia do PSD

Os deputados do PSD eleitos pela Madeira querem parecer preocupados com o fecho do balcão dos CTT no Arco da Calheta.

É preciso ter noção que só estamos a confrontar-nos com a eventualidade do fecho desta estação de correios porque o anterior governo do PSD privatizou os CTT e não salvaguardou o interesse público, nomeadamente a obrigação de o fecho de balcões carecer de autorização do Estado.

A primeira coisa que devem fazer os deputados do PSD da Madeira é um mea-culpa pela privatização dos CTT feita pelo governo do seu partido. A segunda coisa é um segundo mea-culpa por, no passado dia 15 de dezembro, terem votado contra uma resolução apresentada pelo Bloco de Esquerda para o resgate do contrato de concessão – para que o Estado voltasse a assumir o controlo dos CTT, de que nunca deveria ter aberto mão.

Concordo que não é admissível que os idosos do Arco da Calheta e de tantas localidades do País fiquem impossibilitados de fazer o uso normal e permanente dos serviços do CTT, mas foi o PSD que determinou a destruição dos CTT com a sua privatização e novamente ao impedir que esse processo
fosse revertido, ao chumbar a resolução do Bloco de Esquerda.

A decisão da privatização não teve em conta as pessoas nem os trabalhadores dos CTT, obedeceu apenas a um desígnio ideológico do PSD de privatizar e de destruir os serviços públicos e favorecer os lucros privados.

As lamentações dos deputados do PSD são profundamente hipócritas e inconsequentes, não passam de lágrimas de crocodilo. É típico do PSD, toma decisões gravosas para a população e depois vem a público chorar pelas consequências negativas como se não tivesse nada a ver com o caso.

Se estão mesmo preocupados, ainda podem ser iniciativas consequentes: apresentem uma iniciativa na Assembleia da República para repor o controlo público dos correios, para que este obedeça à lógica do serviço público e não à do lucro; ou recomendem ao governo regional do PSD que assuma o controlo público dos correios na Madeira.

2018-01-01

Ferry - mais areia para os olhos.



O ferry no ano inteiro era um mau negócio? Para quem produziu esta afirmação [grupo Sousa] seguramente.

O Armas manteve a ligação por 4 anos, solicitou uma segunda ligação semanal que foi recusada, investiu num um barco maior e mais rápido para esta linha. Isto quer dizer que era um mau negócio?

O governo regional só criou problemas: Inventou restrições ao transporte de carga, aumentou as taxas do porto, entre outras dificuldades. Tornou a operação num mau negócio, escorraçou o Armas.

Um ferry só para passageiros é um mau negócio!

Uma ligação apenas entre a Madeira e o continente é seguramente pior negócio que a extensão da ligação até às Canárias.

Os interesses que determinaram a expulsão do Armas da Madeira, continuam a valer mais que os interesses da população em geral, por isso não há ferry e os concursos que foram lançados não passam de uma farsa - parecer que se faz qualquer coisa, para continuar tudo na mesma!





2017-12-30

Defender a Madeira?

Defender a Madeira é levá-la à bancarrota? É criar uma dívida para o povo pagar e que serviu sobretudo para enriquecer meia-dúzia? É fazer obras inúteis - novo cais, marina do Lugar de Baixo, cota 500 e outras - e atirar para Lisboa as culpas de não termos um novo hospital?

“Abençoada dívida”, disse Jardim. A dívida trouxe desenvolvimento, criou empregos, estabeleceu novas atividades económicas e gerou riqueza? Enquanto duraram as obras sim, mas depois não! As vias rápidas, os centros cívicos as promenades, por sí só não dão sustento a ninguém, são antes um encargo pois carecem de manutenção. A dívida foi uma embriaguez, criou uma ilusão de riqueza, mas acabada a “festa” veio a ressaca, voltou a pobreza, o desemprego e a emigração. Ah, mas ficaram os ricos da Madeira nova...

O CINM, dá milhões no IRC mas faz perder mais em transferências da Europa e do Estado. Pelo meio deu 50 milhões a um grupo hoteleiro. O PSD queixa-se de discriminação face aos Açores, a culpa é do CINM, que faz o PIB da Madeira parecer mais alto do que é - uma ilusão de riqueza. Defende o CINM, mas queixa-se das suas consequências.

Milhões do SESARAM vão parar ao tal grupo hoteleiro para lavar a roupa enquanto a lavandaria do hospital está parada. Outros milhões somem-se em análises e exames requisitados aos privados, porque os equipamentos do hospital não são reparados. E a saúde pública continua a degradar-se e a perder recursos.

O ferry foi escorraçado porque estava a mexer nos interesses do grupo que controla os portos e o transporte por mar, grupo que diz “defender a Madeira”, defende, mas como sua “quinta” privada, coisa que o PSD apoia.

O Estado não apoia a Madeira? Apoiou sempre, com vários perdões de dívida, com meios financeiros, técnicos e humanos nas emergências. A Lei de Meios deu 1.100 milhões, que foram em larga medida desbaratados em reparações no Lugar de Baixo, no novo cais e, mais recentemente nas ribeiras do Funchal, enquanto algumas famílias afetadas continuam sem serem apoiadas.

Diz o PSD que não há dinheiro para as expropriações e projetos do novo hospital, mas então como é que há dinheiro para as vias rápidas e pista de atletismo? O que é mais urgente?

O governo exige o pagamento das dívidas a Lisboa, mas não paga o que deve aos municípios, nem sequer a dívida do IRS que Albuquerque não se cansava de exigir quando estava na CMF, como também não revê o tarifário do depósito do lixo na Meia Serra, como também exigia antes. Um pouco mais de seriedade e coerência.

Defender a Madeira não é defender os novos donos da Madeira que enriqueceram com a dívida que o povo agora tem de pagar, nem é atribuir as culpas a Lisboa para branquear as responsabilidades do governo regional. Defender a Madeira é falar a verdade, para prevenir a repetição dos disparates do passado.

É um truque velho, usado por governantes incompetentes e pouco democráticos, inventar um inimigo externo a quem atribuir as culpas de todos os males. Para o regime de Maduro os culpados dos males da Venezuela são a América e a oposição “traidora da pátria”. Para o PSD a culpa dos males da Madeira é de Lisboa e da oposição regional, “traidora da Autonomia”, são tão iguais.

Os inimigos da Madeira não estão em Lisboa, estão cá dentro, são os novos donos disto tudo que enriquecem com a dívida, com as negociatas do CINM, com as concessões dos portos e das vias rápidas. E o povo enganado, para pagar a dívida e ganhar o seu sustento tem de emigrar, depois de 40 anos de autonomia.

As motivações de uma candidatura

O Bloco de Esquerda na Madeira teve em 2015 os melhores resultados de sempre em eleições regionais e nacionais. Porém não está a saber aproveitar esse feito para crescer e afirmar o seu projeto político. Sente-se uma acomodação à sombra do resultado, visto como acidental e não como um novo patamar de ambição que o BE deve assumir e procurar consolidar.

Os resultados nas últimas autárquicas fora do Funchal foram dececionantes e refletem as deficiências na organização interna, a não implantação nas localidades e a incapacidade de atração de novos quadros. À falta de estratégia e de preparação atempada da campanha, juntou-se a falta de meios e eventualmente de vontades, mais pareceu um ato para cumprir calendário.

No Funchal o BE aumentou o número autarcas eleitos, mas o mérito deve ser imputado a Paulo Cafôfo. A participação na coligação Confiança foi necessária e fundamental para que o PSD não recuperasse a Câmara. O Bloco deve manter no futuro a mesma atitude responsável que já demonstrou no passado e que permitiu à Mudança sobreviver à crise de 2014. No entanto, o respeito pelos compromissos e a lealdade para com os parceiros não podem cercear a autonomia nem condicionar a ação do partido.

Posto isto, vários aderentes e dirigentes inconformados com a situação resolvemos traduzir a vontade de mudança na construção de uma lista candidata à Comissão Coordenadora Regional da Madeira do Bloco de Esquerda, a eleger na convenção convocada para 4 de março de 2018, da qual serei o cabeça de lista.

Pretendemos um BE-M maior e mais forte, com uma linha política clara e bem definida, com uma atuação consequente e sem tibiezas. Com propostas concretas para enfrentar o muito que há por fazer na Região e dar contributos válidos à resolução dos problemas das pessoas.

Um partido/movimento mais dinâmico, mais transparente, com processos internos de discussão e decisão coletivos e participados, e aberto a todos os contributos válidos recolhidos da sociedade, com vários protagonistas para além dos deputados eleitos. Um partido mais interventivo fora dos parlamentos, presente nas localidades para ouvir as pessoas e dar seguimento às suas reivindicações, através de ação política concreta.

Um Bloco com orgulho das lutas do passado e crente no seu crescimento, que valoriza os seus militantes e dirigentes, aberto e disponível a novas militâncias e contributos, que reforcem a sua capacidade de intervenção e credibilidade.

Queremos um Bloco de Esquerda que faça a diferença!

A enfrentar o poder económico e a promiscuidade entre o público e privado; a denunciar os privilégios para uns poucos à custa do empobrecimento da maioria, à conta de privatizações, concessões e parcerias público-privadas; ao defender os serviços públicos essenciais (saúde, educação, segurança social) e o controlo público dos setores estratégicos (eletricidade, água, transportes, comunicações).

É nossa convicção que apenas soluções coletivas e sistémicas resolvem os problemas sociais do desemprego e da pobreza e que as formulações salvíficas assentes num suposto caráter messiânico de sujeitos individuais, dotados de qualidade sobre-humanas não passam de propaganda ideológica que visa promover a aceitação social das desigualdades, da pobreza e agrava os problemas.

A marca do Bloco é também o combate intransigente pelos direitos sociais, pela igualdade entre homens e mulheres, contra as discriminações com base na etnia, na identidade sexual, na religião ou outra; pela defesa dos animais e pela proteção do meio ambiente.

O Bloco não pode abdicar das suas causas em nome de conveniências circunstanciais, sob risco de perder a sua identidade e utilidade.
A força e a credibilidade que o BE conquistar vão determinar as opções que terá ao dispor nos desafios futuros. Não é agora o momento para excluir qualquer opção.

Será desastroso ficar limitado a uma única opção, refém de terceiros e sem capacidade de enfrentar os combates pelos próprios meios.

As mudanças comportam riscos e oportunidades. É nossa convicção que esta nossa proposta será muito positiva – os resultados de 2015 foram disso um bom prenúncio – o Bloco tem condições para crescer, para se tornar a força da esperança num futuro melhor para a maioria das pessoas e o motor de uma verdadeira mudança de políticas na Madeira.